Expresso do Amanhã

SINOPSE
Quando um experimento para impedir o aquecimento global falha, uma nova era do gelo toma conta do planeta Terra. Os únicos sobreviventes estão a bordo de uma imensa máquina chamada Snowpiercer. Lá, os mais pobres vivem em condições terríveis, enquanto a classe rica é repleta de pessoas que se comportam como reis. Até o dia em que um dos miseráveis resolve mudar o status quo, descobrindo todos os segredos deste intrincado maquinário.


Menos é mais.

Cenários pós-apocalípticos não são grandes novidades no cinema. A grande carga reflexiva que vem com a maioria deles, reproduzindo nossas realidades, também não é uma grande novidade. Cabe a cada um dar seu toque pessoal, incluir a sua assinatura, para que o seu cenário se destaque no meio de vários outros que "competem" na mesma categoria. Mas é preciso cuidado, para não ir longe demais e não comprometer o conjunto da obra. Este parece ser o maior aprendizado de O Expresso do Amanhã (Snowpiercer).

Com base no graphic novel francês Le Transperceneige, o roteiro é escrito por Kelly Masterson e Joon-ho Bong, que também dirige o filme. Entre os principais nomes do elenco estão Chris Evans, John Hurt, Tilda Swinton e Ed Harris. Kyung-pyo Hong, creditado como Hong Kyung Pyo, fica responsável pela direção da fotografia do filme, enquanto a música é coordenada por Marco Beltrami.

É interessante perceber o aspecto global que tem a produção de Expresso do Amanhã. Sua base nos quadrinhos franceses é adaptada para as telas por um americano e um sul-coreano (também conhecido como coreano do bem), que também dirige o longa; é permeado de atores americanos e britânicos e trilhado por um ítalo-americano. É uma salada mista de dimensões globais que agrega um pouco de várias culturas diferentes a algo que pretende trilhar um caminho por todo o mundo, assim como o trem que dá nome à obra.


Um fator que logo se destaca, falando especificamente sobre o trem, é como a direção de arte incrivelmente orquestrada pelo checo Ondrej Nekvasil nos ajuda a traçar um percurso linear (óbvio, se trata de um trem) e orgânico pela locomotiva transcontinental. A partida do vagão da cauda, com os famosos "proletas", se torna mais bela e aconchegante a cada etapa vencida e novo vagão visitado. Essa evolução é gradativa tanto no nível de cores e de luz quanto na mobília de cada vagão, que vai de beliches imundas a mesas que parecem ter sido cuidadosamente criadas a partir de materiais nobres.

Isso, aliado ao clima criado logo nos primeiros segundos de filme e ao gabarito do elenco que se encontra em disposição, já seria mais que suficiente para a criação de uma das melhores ficções científicas dramáticas do ano. A carga dramática da proposta é instantaneamente estabelecida e a situação daquelas pessoas que ali se encontram é tão crível que, mesmo que nos recusemos, somos levados a compartilhar aqueles momentos de alegria e de tristeza da tripulação do último vagão.

Mas é aí que, pelo menos na opinião deste mero escravo do sistema que vos escreve, as coisas começam a desandar. Esses vários elementos já citados parecem não ser suficientes. Logo, talvez pela própria origem da trama nos quadrinhos, alguns elementos de ação são inseridos na trama de forma consideravelmente brusca. Os embates, que eram previsíveis, tomam uma forma inesperada e se apresentam como lutas com movimentos coreografados que em muito lembram o estilo oriental se luta de Jackie Chan e companhia. Os "proletas", antes meros manifestantes apostando suas vidas por uma causa, agora são lutadores ávidos por um prêmio que deixam claro que conseguirão.


Esse investimento em ação quebra, de forma totalmente desnecessária, os dramas, os riscos e até mesmo um pouco do clima que está sendo construído ali. Não precisamos mais temer por aquelas pessoas, porque elas se viram muito bem sozinhas. O inimigo, antes opressor e quase inalcançável, se torna apenas um adversário a ser vencido. É nesses momentos que cabe a velha provocação: até que momento a surpresa é boa e necessária? Considerando as outras muitas surpresas do filme (algumas até excelentes), é realmente necessário esse tipo de investimento de tempo e orçamento na "novidade" visual, tendo um texto tão rico e interessante para explorar?

Como imagino que esteja evidente durante boa parte do texto, confesso que não cheguei a ler o graphic novel francês antes de ver o filme, apesar da grande curiosidade. Por isso, se você já sabia desta quebra de clima no filme, esse aspecto não deve incomodar tanto quanto me incomodou. De qualquer forma, a surpresa já mencionada não invalida a grande qualidade de todo o resto da obra. Expresso do Amanhã é um filme que coleciona muito mais acertos que erros e merece, sem sombra de dúvidas, ser visto de coração aberto.
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