Narcos - 1ª Temporada


SINOPSE
A série conta a história de Pablo Escobar, um a personificação de um mito do narcotráfico colombiano e internacional, através dos olhos de Steve Murphy, agente do DEA que tem a missão de trazê-lo à justiça.

"Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos." - Percy Bysshe Shelley.

Pablo Escobar é, provavelmente, um dos criminosos mais icônicos da história da humanidade moderna. Sua mítica vai muito além da própria criminalidade e se espalha, inclusive, para o falso humanitarismo e para disputas políticas. Este foi um aspecto muito bem abordado em Narcos, a nova série da Netflix.

Criada por Chris BrancatoPaul Eckstein, nova série da Netflix conta com a participação ativa de José Padilha. Em seu elenco, estão Wagner MouraBoyd HolbrookPedro PascalJoanna Christie, entre outros. Pedro Bromfman é o nome por trás da trilha sonora, com a participação de Rodrigo Amarante, que é responsável pela música de abertura.

A presença de Wagner Moura e José Padilha na produção evoca, quase imediatamente, comparações com Tropa de Elite, possivelmente o trabalho mais expressivo internacionalmente da dupla. A herança, tanto em narrativa quanto em estética, fortalece ainda mais a impressão de que aquelas pessoas estão fazendo o que sempre gostaram de fazer. A utilização de congelamento de alguns planos para a a narração e a própria utilização de um narrador vai muito de encontro com algumas das escolhas que fizeram Tropa de Elite ser tão interessante em questão de forma.


Aliás, a presença de um narrador na trama chegou a incomodar um pouco nos momentos iniciais da série. Por não entender logo de início a forma brusca como as vidas do agente Steve Murphy e de Pablo Escobar se cruzariam no decorrer da série, a utilização do recurso não me parecia narrativamente justificável. Não conseguia imaginar por que haveria alguém falando sobre tudo que acontece, principalmente com a presença de tantos momentos que se afastam imensamente do conhecimento daquele que nos narra. Por um momento, a semelhança entre a voz de Boyd Holbrook e a de Wagner Moura chegou a incomodar, de certa forma, mas este sentimento foi sumindo gradativamente. A maior parte da responsabilidade por esse sumiço é a forma incrível com a qual se dá a narração, unindo vídeo e áudio de um jeito extremamente orgânico e atraente.

As atuações estão todas excelentes, mas a performance de Wagner Moura se destaca. O espanhol claramente falso e diferença física entre ele e o verdadeiro Escobar, mostrado na própria abertura da série, em nada diminuem a certeza de que ele É Pablo Escobar. Seu andar é tranquilo e imponente ao mesmo tempo, como se tivesse certeza de que derrotaria os inimigos atraídos por sua posição acima de tudo e todos. Seu olhar varia entre a introspecção e o alerta, como se, por mais alto que tenha ido, ainda existe algo faltando.

Toda a parte visual da série é muito impactante (para o bem ou para o mal) e isso fica evidenciado logo nos créditos iniciais, mostrados em uma abertura muito inspirada e viciante. Durante os episódios, é interessante reparar na quantidade enorme de composições baseadas em contrastes de verde e vermelho, principalmente nos momentos em que os conflitos entre Escobar e o governo se mostram mais intensos. Estas composições são feitas, inclusive, a partir de luzes, que funcionam de forma muito orgânica dentro do contexto. Verde e vermelho. Dinheiro de negociações e sangue de guerra. "Prata ou chumbo".


A trilha sonora é um grande acerto, misturando momentos e culturas diferentes para compor uma atmosfera que reflita um pouco de cada um dos muitos lados e interesses envolvidos na trama. A relação entre a música de abertura com a série é, provavelmente, um dos maiores indicadores disso. A melancolia envolvida na voz do eu-lírico, que vive um amor bandido, interage de uma forma incrível com a própria relação entre Pablo Escobar e a Colômbia, que é seu lar. Ele é, realmente, como diz a música, "o fogo que a queima a pele" e "a água que a mata a sede". É poesia em vários níveis diferentes.

No fim das contas, Narcos é inteligente ao contar uma história já conhecida a partir do ponto de vista de um de seus maiores opositores. O afastamento de Pablo Escobar do "protagonismo" dá espaço para o desenvolvimento de subtramas muito interessantes e nos permite ver as coisas de forma mais holística. Desenvolve bem o conceito de "realismo mágico", apresentado logo em seu início, ao falar de política, criminalidade, poder, motivações e amores e colocar em seus devidos lugares aqueles que estão por trás de todas essas coisas: os seres humanos.


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