
Há seis dias, o astronauta Mark Watney se tornou a décima sétima pessoa a pisar em Marte. E, provavelmente, será a primeira a morrer no planeta vermelho. Depois de uma forte tempestade de areia, a missão Ares 3 é abortada e a tripulação vai embora, certa de que Mark morreu em um terrível acidente. Ao despertar, ele se vê completamente sozinho, ferido e sem ter como avisar às pessoas na Terra que está vivo. E, mesmo que conseguisse se comunicar, seus mantimentos terminariam anos antes da chegada de um possível resgate. Ainda assim, Mark não está disposto a desistir. Munido de nada além de curiosidade e de suas habilidades de engenheiro e botânico – e um senso de humor inabalável –, ele embarca numa luta obstinada pela sobrevivência.

Perdido em Marte é o primeiro livro do autor Andy Weir e tem uma história curiosa: Weir não conseguiu vender sua obra e, em 2011, resolveu disponibilizá-la de graça, capítulo a capítulo, em seu site. Por pedido dos fãs, fez uma edição digital para o kindle e colocou à venda no site Amazon por 99 centavos. O livro rapidamente se tornou um dos mais vendidos de ficção científica e foi comprado por uma editora de audiobooks. Foi somente em 2014 que teve a sua primeira impressão. No Brasil, Perdido em Marte foi lançado em 2014 e tem sido muito comentado recentemente devido à sua adaptação para o cinema, que estreia em outubro desse ano.
Talvez a maior qualidade da obra seja seu humor. Com vários trechos escritos na forma do diário de bordo de Mark Watney, o astronauta preso em Marte, o esperado é uma narrativa pesada e triste. Mas não é o que acontece. O personagem é bem-humorado e otimista, ler seus pensamentos é muito divertido. Em vários momentos o leitor se pega pensando que queria conhecer Watney na vida real e sentar com ele numa mesa de bar – o que é uma relação rara com protagonistas, que costumam ser heroicos ou propositalmente repulsivos. Mark, por outro lado, acaba parecendo mais um amigo que um personagem.
A leitura não é complicada. O vocabulário é comum e o livro é cheio de piadas e referências à cultura pop, é fácil devorar páginas e mais páginas sem nem perceber. Um único ponto pode prejudicar a experiência: a descrição técnica presente no diário de bordo. Temos explicações sobre física, química e botânica, por exemplo. Porém é tudo explicado de forma razoavelmente simples e mesmo quem é de humanas consegue acompanhar sem dificuldade. Particularmente, gostei desse detalhe que trouxe mais realismo à obra, mas acontece dos leitores acharem um pouco cansativo.

O enredo é interessante e lotado de reviravoltas, o que faz o leitor prender a respiração em diversos momentos. De forma geral, é uma combinação de tensão e positividade. Essa mistura cria um ritmo muito bom: é difícil querer parar de ler.
Em relação a desenvolvimento de personagem, a obra não se sobressai. As personagens começam e terminam o livro da mesma maneira. Porém isso não é um fator essencialmente negativo, pois a construção delas foi bem-feita: são carismáticas e suas ações condizem com suas personalidades.
O clima que Perdido em Marte traz é esperançoso. Mark Watney tem esperanças, a humanidade tem esperanças e o leitor não consegue deixar de ter também. Em uma era de distopias e narrativas desesperançadas, esse é um sopro muito bem-vindo. Dessa forma, a aventura de um homem em Marte se torna o que o leitor na Terra não está acostumado: uma ficção científica que mostra o lado bom do ser-humano.
