A Travessia

SINOPSE
A história do equilibrista Philippe Petit (Joseph Gordon-Levitt), famoso por atravessar as Torres Gêmeas usando apenas um cabo. A ação ocorreu na ilegalidade em 7 de agosto de 1974 e ganhou destaque no mundo inteiro.

"As cenouras estão cozidas."

Biografias são cartas marcadas do cinema. Geralmente sabemos o que vem pela frente em relação ao destino das personagens, mas temos muito a ganhar com elas. Algumas são criadas para nos motivar, enquanto outras estão ali para nos lembrar de coisas que não podem ser esquecidas. Mas, por mais interessante que seja a personagem retratada ali, temos muito mais a ganhar quando não temos conhecimento daquela história. A Travessia é um ótimo exemplo disso.

Com base no livro autobiográfico To Reach the Clouds, de Philippe Petit, o roteiro do filme é adaptado por Christopher Browne e Robert Zemeckis, que é tanto roteirista quanto diretor. Joseph Gordon-Levitt interpreta o protagonista e divide a tela com Charlotte Le Bon, Ben Kingsley e Clément Sibony, entre outros. A trilha sonora é composta por Alan Silvestri, enquanto a fotografia é dirigida por Dariusz Wolski.

Antes de tudo, deixo aqui um desabafo pessoal: não entendo filmes biográficos que não nos mostram imagens reais das pessoas ali retratadas. Me parece muito errada a ideia de nos contar sobre a vida de uma pessoa e nos privar de ver o rosto da pessoa que está sendo elogiada, criticada e, acima de tudo, explorada durante duas horas de filme. É exatamente isso que o filme faz, mesmo que apresente imagens filmadas como se fossem da época na qual o filme se passa. Essa decisão, assim como a de utilizar o narrador em pé na estátua da Liberdade, me parece muito aleatória. Talvez façam sentido para quem leu o livro ou estudou a história de Petit.


E já que algumas decisões estéticas e narrativas no filme são meio duvidosas, o que o torna tão interessante é o conjunto temático que ele apresenta. As personagens, que são grandes avatares do espírito artístico e inquieto da juventude, falam o tempo todo sobre arte e posicionamento político (de uma forma poética, muito distante do estilo "textão de facebook") e até mesmo como a arte assume um aspecto anárquico e revolucionário dentro da sociedade.

Então não se deixe enganar: A Travessia não se trata de um thriller protagonizado por um homem passando apuros enquanto caminha sobre uma corda entre as duas torres do World Trade Center. O filme mostra as aspirações e filosofias de um jovem francês que vê seu espírito artístico ser mal interpretado na França e que é levado, por sua vontade de estender sua corda em alturas cada vez maiores, a planejar e realizar um evento de extrema grandeza (o trocadilho foi inevitável).


As atuações estão boas, mas pedem um certo tempo para que o espectador se acostume. Joseph Gordon-Levitt faz uma narração de um jeito bastante canastrão, tanto na entonação da voz quanto na pronúncia do francês. Aos poucos nos acostumamos, tanto com ele quanto com Ben Kingsley. O resto do elenco também está muito bem e, por vezes, parecem tão confortáveis em cena quanto os dois figurões com os quais estão atuando.

A Travessia é um filme muito bonito e que merece ser visto, mas que tem sido vendido errado e pode ser frustrante para algumas pessoas. Mesmo com algumas cenas que causam vertigem, o foco do filme é muito maior no texto e nas interações entre as personagens do que no momento de glória de Philippe.
Compartilhe no Google Plus