
Nos confins de uma terra inclemente, assolada por monstros e governada pelo terrível dragão Zamir, ergue-se o mosteiro de São Arnaldo. Os clérigos tentam viver em paz, sob o jugo do tirano, quando encontram um estranho garoto. Uma criança selvagem, dotada de poderes misteriosos, que luta como um adulto. Seu nome é como um rugido: Ruff Ghanor. Descendente de uma linhagem esquecida de reis, Ruff Ghanor pode ser o escolhido para combater o dragão.

O RPG (Role-playing game) é aquele estranho jogo de interpretação que reúne amigos, imaginação e alguns dados, mas, acima de tudo, é um grande método colaborativo para se criar histórias fantásticas. E foi assim que nasceu A Lenda de Ruff Ghanor. A galera do Jovem Nerd montou uma trilogia de podcasts narrando uma aventura de RPG medieval, os programas fizeram tanto sucesso que Alexandre Ottoni e Deive Pazos optaram por expandir este universo.
É importante deixar claro que Ruff Ghanor não é interpretado por nenhum dos jogadores, é um NPC (non-player character ou personagem não jogável) que age como pivô para o desenvolvimento da primeira parte da aventura, o livro é uma espécie de prequel que explora sua origem e evolução. Leonel Caldela foi o escritor intimado para contar esta história. Caldela é um exímio jogador de RPG especialista em trabalhar com universos ficcionais já existentes: ganhou destaque escrevendo para Tormenta, mas também conta com várias obras autorais.
E neste universo somos apresentados a uma premissa que, em resumo, diz que os deuses, insatisfeitos com suas criações, decidiram enviar um monstro bestial para exterminar tudo o que vive, carinhosamente chamado de o Devorador de Mundos. Mas os demônios que habitavam a terra resistiram e, temendo seu próprio fim, criaram uma horda de dragões para enfrentar a subjugadora criatura. Uma série de batalhas foram travadas até que o Devorador de Mundos finalmente caiu. A fúria dos deuses foi sentida por muito tempo, mas o mundo resistiu e apenas um dragão permaneceu vivo: Zamir.

O livro não possui a pretensão de ser um grande clássico literário, até porque ele se baseia na ideia do "the chosen one", fixada por Matrix e amplamente utilizada até hoje. Ruff Ghanor é O Escolhido para deter Zamir, o dragão ditador que se considera o rei de todas as raças por ter ajudado a derrotar o Devorador de Mundos. Outro fator que pode ser considerado um problema é que as pessoas que ouviram o Nerdcast Especial de RPG já sabem uma parte do destino do protagonista e do grande vilão.
Em contrapartida, o capricho e a preocupação com o desenvolvimento da trama conseguem fazer com que você se mantenha interessado (e até mesmo fascinado) por aquela aventura. Caldela tem um método de escrita e narração leve, mas que não deixa nenhum detalhe de fora. O autor explora de modo provocativo a magia e a fé, evitando exageros, e a descrição dos ambientes e dos personagens atinge o ponto ideal, permitindo ao leitor imergir na trama sem se cansar da leitura.

Outro ponto interessante a ser discutido: a história de Ruff Ghanor é apresentada para o leitor através de, aproximadamente, três ou quatro arcos, cada um com seu início, meio e fim. Imagino que o autor mantenha essa estrutura para se aproximar da sensação de como é jogar uma partida de RPG. Um jogador sabe que cada sessão necessita de um final épico, faz parte da diversão, e cada arco dentro do livro possui uma conclusão grandiosa.
Particularmente, isto fez com que eu demorasse mais tempo do que deveria para terminar a leitura, eu devorava dezenas de páginas até alcançar o início de um novo arco que quebrava meu ritmo e me levava a dar uma pausa, voltando ao livro apenas alguns dias depois. Porém ouvi relatos de pessoas que terminaram a história em poucas horas, outras em dois ou três dias. É apenas uma experiência pessoal que não diminui nível da obra.
É muito gostoso notar que o Brasil produz tantos trabalhos de qualidade, às vezes não damos o devido valor aos "novos" autores nacionais, mas livros como A Lenda de Ruff Ghanor possuem em seu cerne uma carga cultural que conecta o leitor àquele universo de uma forma muito mais profunda do que estamos acostumados. Apesar de ser uma fantasia medieval, a organização da sociedade, os problemas e até mesmo o modo como os relacionamentos são representados são intimamente familiares.

Apesar de ter nascido de uma "brincadeira", A Lenda de Ruff Ghanor - O Garoto-Cabra é uma aventura bem construída, divertida e instigante. O livro é o início de uma trilogia, indicada para qualquer pessoa que curta o gênero de fantasia medieval, mas é quase um presente para os Nerds por estar recheado de referências, principalmente ao mundo dos RPGs e à Terra Média de Tolkien.
"O dragão, por um momento, olhava um membro da raça humana com com algo além de desprezo."
