
SINOPSE
Everybody's Gone to the Rapture conta a história dos habitantes de uma vila inglesa que sofre com eventos avassaladores além do seu controle ou compreensão. O jogo fala sobre os últimos momentos de vida de pessoas comuns frente a um apocalipse.

Ao concluir Everybody’s Gone to The Rapture, me deparei com várias sensações entre confusão e melancolia e me senti instigado a jogá-lo novamente sem pausa para tentar preencher esse vazio que deixou. Embora seja claro que o intuito não é de esclarecer todos o fatos da trama, pontas ficam soltas e há uma necessidade de explorar o imenso mapa do jogo com bastante paciência. Everybody’s Gone To The Rapture é para poucos. Mesmo que suas mecânicas sejam extremamente simples, a ausência de um “jogo” propriamente dito torna as 5 ou 6 horas de jogo desgastantes.
Produzido pelo estúdio inglês independente The Chinese Room, também responsável pelos títulos, Amnesia: A Machine for Pigs e o visualmente aclamado Dear Esther – precursor do gênero pejorativo walking simulator –, o jogo foi lançado com exclusividade para playstation 4 em agosto de 2015.

De início, o jogador é colocado em uma cidade que passou por um apocalipse. Dessa forma, nos tornamos espectadores numa atmosfera vazia, preenchida apenas por resquícios do fim de tudo, memórias que foram deixadas como rastros do tempo. Somos guiados de formas intuitivas por sons de radio, telefones tocando e uma sinuosa esfera de luz que conduz o jogador pela trilha linear da história. A pacata vila de Yaughton transborda em sua solidão. Não fosse pelos bares vazios com garrafas de cerveja ainda pela metade, bicicletas e carros abandonados no meio da estrada e casas com portas entreabertas, não saberíamos que houve um apocalipse catastrófico na região. O jogo se baseia no gênero de adventure, mas possui diversos elementos de ficção-cientifica e, de forma aconchegante, traduz o sentimento de viver e amar.
Confesso que esse não é um jogo divertido. A jogabilidade, que consiste 90% do tempo em caminhar, torna difícil distinguir o jogo de um filme interativo. De qualquer forma, a história e os segredos escondidos na vila de Yaughton transformam a curiosidade do jogador em um motivador para continuar dentro desse mundo em busca de respostas.
Everybody's Gone to the Rapture é dividido entre 6 personagens que acompanhamos por meio projeções do passado exibidas por uma espécie de luz – que também é o fator responsável pelos eventos apocalípticos no vilarejo – e nos apresenta indivíduos que tiveram envolvimento na catástrofe e memórias de pessoas com problemas cotidianos e humanos. Ambientado nos anos 80, é uma peça rara em obras pós-apocalípticas por abordar temas que envolvem seus personagens frente à situação e não o problema propriamente dito.

No decorrer do jogo, conseguimos descobrir lentamente o destino do vale: ao juntar recordações fragmentadas dos seus habitantes é possível montar um quebra-cabeça de relatos que juntos formam pequenos momentos dessa comunidade antes do seu fim. Ao interagir com os vestígios dessas vidas perdidas, o jogador aprende gradualmente sobre as histórias e as relações entre os habitantes, como eles viveram e como morreram. O que o jogo apresenta em Rapture narrativamente é tão importante quanto o que é feito pelo jogador, mesmo que essa participação seja apenas caminhar.
Somada à beleza visual indescritível do jogo, temos também a trilha sonora. Em diversos momentos, parte da carga emocional do jogo é transmitida graças a ela. Diria até que uma das peças fundamentais do jogo se trata do belíssimo trabalho realizado de forma magistral pela compositora Jessica Curry. A trilha sonora foi vendida na loja do Playstation, mas também pode ser encontrada no spotify.

Ao mesmo tempo em que Everybody’s Gone to The Rapture é uma experiência única e contemplativa, simples de ser acompanhada e jogada até pelos menos habituados com joysticks "de muitos botões", esse não é um jogo fácil de ser recomendado por sua monotonia e sutileza: é necessária determinação por quem o joga para conclui-lo. Já aos acostumados com videogames, a dificuldade em recomendá-lo consiste na sua falta de desafios ao jogador, que pode facilmente desistir pela metade ou simplesmente assumir que não se trata de um jogo. Mas acredite, há algo de especial nessa obra e vale a pena ser conferida.
