Que Horas Ela Volta?

SINOPSE
A pernambucana Val se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino vai prestar vestibular, Jéssica lhe telefona, pedindo ajuda para ir a São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica.



Infelizmente, é natural vermos brasileiros torcendo o nariz para filmes nacionais. Atualmente, grande parte desse "nojinho" vem das comédias pastelões, que geralmente são superproduções financeiras que ocupam a maior porcentagem de salas de cinemas (no âmbito nacional) durante o ano. Mas devemos comemorar e principalmente valorizar quando um bom filme consegue seu merecido destaque (e financiamento).

Que Horas Ela Volta? foi idealizado por Anna Muylaert (Irmã Dulce, Xingu) em meados de 2002, mas apenas em 2014 ela se sentiu madura o bastante para escrever, dirigir e produzir a história. O resultado já rendeu alguns prêmios internacionais e fez com que o filme fosse escolhido para representar o Brasil na inscrição para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2016.

Regina Casé, amada por muitos e odiada por tantos outros, protagoniza o longa ao lado da brasiliense Camila Márdila. Também estão no elenco Michel Joelsas, Karine Teles, Lourenço Mutarelli e Helena Albergaria. Karen Harley é a responsável pela edição.


Que Horas Ela Volta? traz duas discussões que estão intrinsecamente ligadas a qualquer indivíduo. A primeira delas é relativa à desigualdade de classes sociais, onde Val (Regina Casé) é uma nordestina pobre que trabalha de empregada doméstica na casa de uma típica família paulista de classe média/alta e que tem em mente que aquele é justamente o seu papel na sociedade. Val é batalhadora, porém acomodada por sua condição social.

E aqui é interessante observar como os programas da Globo nivelam os atores por baixo: a atuação de Regina Casé é um dos pontos altos do filme. Ela se entregou totalmente à personagem, se preocupando com cada trejeito e cada detalhe. Camila Márdila também merece destaque neste quesito. Já alguns atores coadjuvantes deixam a desejar, mas não é nada que atrapalhe na imersão.

O segundo ponto de debate que o filme traz é a importância da presença da mãe na formação de um filho. A história explora a vida de uma mãe rica e uma pobre, completamente diferentes em todos sentidos, ambas ausentes por motivos distintos. São as personagens que evoluem durante a trama até demonstrarem seu lado mais íntimo, quem realmente são.


O longa acerta de várias formas. Os diálogos foram construídos da maneira mais orgânica possível: a linguagem é verdadeiramente informal. Acontece, por exemplo, de uma palavra ser dita de maneira errada e depois repetida. Este tipo de "imperfeição" traz uma veracidade admirável à obra. Às vezes parece que a diretora Muylaert apenas explica as cenas e deixa que o elenco se adapte a elas naturalmente, assim como José Padilha fez muito bem em Tropa de Elite.

O alívio cômico presente nas falas e atitudes de Val também atinge o ponto certo para tirar alguns risos e sorrisos sem comprometer a estrutura levemente dramática do filme. Mas é notória a falta de uma trilha sonora marcante, um ponto triste a ser observado, já que este tipo de narrativa costuma atingir o interior das pessoas e uma boa música só iria somar ao resto da experiência.

De qualquer modo, Que Horas Ela Volta? é um trabalho grandioso que cumpriu bem o seu papel. Diverte, informa, causa reflexões e, acima de tudo, demonstra de várias formas o potencial cinematográfico nacional.
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