
SINOPSE
No futuro, existe a matrix. Uma espécie de alucinação coletiva digital na qual a humanidade se conecta para, virtualmente, saber de tudo sobre tudo. Mas há uma elite que navega por essa grande rede de informação - os cowboys. Case era um deles, até o dia em que tentou ser mais esperto do que os seus patrões. Que fritaram suas conexões com o ciberespaço, tornando-o um pária entre os seus iguais. Ele vaga pelos subúrbios de Tóquio, mais envolvido do que nunca em destruir a si próprio, até ser contatado por Molly, uma bela e perigosa mulher que, assim como ele, desconfia de tudo e de todos. Os dois acabam se envolvendo numa missão cheia de mistérios e perigos.

Neuromancer apresenta o estilo cyberpunk de forma quase encarnada: a jornada de Case, jovem viciado em drogas com membros eletrônicos implantados, em uma realidade criada à base de eletrodos, neurônios e negociações em uma jornada contra uma empresa obscura, é linear e poderia se considerar até mesmo formulaica, não fossem as reviravoltas e segundas intenções inseridas por Gibson no pano de fundo. Funciona como um ótimo guia dentro deste tipo de universo, para aqueles que querem conhecê-lo.
A trama de funciona bastante como uma verdadeira experiência cyberpunk: é confusa, emaranhada e te leva a se perguntar constantemente se o que está acontecendo é real ou ilusório. O esforço para confundir o leitor, mesmo que não seja da forma clássica que somos acostumados a imaginar, é muito visível ao longo dos capítulos. De certa forma, essa confusão reflete a do próprio protagonista, que vive em um universo diferente e tem problemas com drogas.
Por falar em universo, é estranho notar como as personagens de Gibson, mesmo que sejam ativas dentro da trama, se diminuem o tempo todo em relação ao universo criado por ele. É como se o universo que ele está construindo, tão diferente do nosso, fosse muito mais importante que a própria história que está nos entregando. Um dos principais artifícios utilizados por ele para criar esse estranhamento é a criação de palavras específicas para a história, assim como Burgess fez em seu Laranja Mecânica.

Um ponto incômodo desse livro é o excesso de descrição de lugares e momentos. Não tenho certeza se existe uma complexidade tão grande a ponto desse nível de explicações ser necessário ou se Gibson estava tão abismado com seu universo que assim julgou. O que eu sei é que esses momentos tornam a leitura, já lenta por causa de outros fatores, ainda mais travada e cansativa. A própria filosofia do livro parece se perder nesses momentos, causando a triste impressão de que, mesmo pulando alguns parágrafos, nada naquela cena mudaria (seja na ação ou na reflexão das personagens).
Algo que levou muita notoriedade a esta obra foi o filme Matrix, dos até então Irmãos Watchowski, lançado em 1999. Há, de fato, muitas similaridades entre as duas obras e a influência de Gibson sobre os dois diretores fica muito clara, diminuindo um pouco a lente de aumento sobre o estrondoso sucesso dos segundos.
Infelizmente, apesar de ter um universo incrível a ser apresentado, Neuromancer é um livro burocrático e nada democrático. Sua trama interessante por vezes se perde na narrativa, que levanta uma barreira entre o que tem para ser descobertos e os leitores "não iniciados". Merece (e até exige) atenção e esforço de seus leitores, beirando o limbo do "ame-o ou deixe-o".
