
Frank tenta emplacar um plano controverso e corajoso, enquanto precisa resolver vários tipos diferentes de conflitos para escrever seu nome na história durante seu curto tempo como Presidente dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que precisa considerar uma campanha pela reeleição.

"O que é que você está olhando?"
No dia 27 de fevereiro de 2015, o serviço de streamming Netflix (a Ruiva, para os íntimos) liberou a terceira temporada completa da série que é seu carro chefe, entre as produções originais: House of Cards. Com uma carga de seriedade e drama muito forte aliada ao tema político, a série tem, por padrão, 13 episódios por temporada e, por tradição, tem sua temporada inteira liberada de uma vez, em todos os países ao redor desse nosso maravilhoso Planeta Terra.
House of Cards foi adaptada para a série norte-americana por Beau Willimon, baseada em um livro que, inclusive, já virou uma série britânica. Os principais nomes do elenco são Robin Wright, Kevin Spacey (que já ganharam prêmios pela série) e Michael Kelly. Vários roteiristas e vários diretores, como o próprio David Fincher, que é um dos produtores executivos, já passaram pela série. Jeff Beal, por sua vez, trabalhou na trilha sonora dos 39 episódios lançados até agora.
Antes de começar a falar sobre a série, em si, é justo falar um pouco sobre o formato e como ele interfere na narrativa. Se algo é contado através de um filme, a história será curta e objetiva, para caber nos 200 minutos de limite. Caso essa história seja produzida para a TV aberta, as prioridades são alteradas para um conteúdo que valoriza, acima de tudo, a audiência. Logo, haveria barrigas alternadas de correrias, para alcançar os pontos de audiência dentro do espaço de tempo fixo para cada episódio. Por outro lado, com o formato que tem, a série tem uma grande liberdade para brincar com sua trama, livre de todas essas necessidades. Não precisa se preocupar com tempo, com audiência e, vejam só, nem com a construção de tensão para um "Season Finale" tradicional, como vemos nas séries de tv aberta (e até tv a cabo).

Nessa terceira temporada, isso fica muito evidenciado pelo foco que Doug Stamper recebe. Apesar de ser muito próximo do até então Presidente dos Estados Unidos, Doug tem o primeiro episódio da temporada quase que exclusivamente para si e uma boa parte dos episódios seguintes. Aliás, por ser um pouco afastado da trama principal, o arco narrativo da personagem parece, à primeira vista, desinteressante, mas, até o último segundo da temporada, ele se mostra exatamente o oposto.
Um outro ponto muito característico dessa temporada, em termos de formato, também, é a diminuição das famosas interações que quebram a Quarta Parede e colocam Frank em um diálogo direto com o espectador. Aqui, essa diminuição se justifica pelo próprio momento narrativo do protagonista. Enquanto nas duas primeiras temporadas Frank está em uma jornada de ascensão (logo, utilizando o espectador como cúmplice e platéia para seus grandes feitos), aqui ele se encontra acuado, raivoso e à beira do abismo. É quase como se ele soubesse que nós estamos ali, mas se incomodasse com nossa presença, por raiva ou até mesmo vergonha.
E se sente assim com razão: em uma temporada que, informalmente, é dividida em duas partes, com dois antagonistas diferentes, Frank, primeiro, tem que lidar com uma versão atual da Guerra Fria, causada pelo conflito de interesses entre ele e o presidente da Rússia, Viktor Petrov. Essa primeira parte da temporada tem um tom mais diplomático, de relações internacionais e mais simples, considerando que o protagonista está no posto de mocinho e o vilão, com suas feições vampirescas, representa muito bem seu papel.

Na segunda metade, a situação se inverte e a série parece fazer questão de nos colocar em uma situação difícil: em sua campanha para eleição como presidente, Frank encara uma oponente de peso, chamada Heather Dunbar. Aqui as relações têm uma relação muito íntima com Breaking Bad, quando torcemos para que o vilão vença sua oponente, que só tem boas intenções, apesar de todos os sinais que recebemos sobre o perigo iminente que isso representa. Felizmente (ou infelizmente), essa situação é deixada para trás, quando (e aqui lembro de Michael Corleone) a mocinha é corrompida pelo sistema e se torna um monstro tão disposto e detestável quanto o homem para o qual torcemos.
Outra semelhança com Breaking Bad é a mudança de atitude de Frank Underwood, sempre tão calculista e cuidadoso, ao tomar o Poder Definitivo em suas mãos. Seu ego e sua arrogância se tornam tamanhos, que não existe lugar para outras pessoas ao seu lado. É um erro bastante idiota, considerando sua situação, e quase inacreditável, se considerado fora do contexto no qual o protagonista está inserido.
Claire Underwood, por outro lado, quase consegue ser a única constante dentro da temporada. Considerando o comportamento cada vez menos humano de seu marido, quando está longe das câmeras, a personagem tenta compensar saindo de sua armadura de gelo e se aventurando (e, consequentemente, errando) como um ser humano comum em situações incomuns. É claro que isso não a impede, por exemplo, de se mostrar extremamente corajosa e desafiadora, em vários momentos. A forma como a dinâmica de casal dos dois é apresentada nessa temporada é inquietante, mesmo considerando os esforços aparentes em prol do relacionamento.

A temporada tem momentos mais lentos, de descontração e construção, e tem momentos de pura tensão, em que "sentado na beira do sofá" não parece ser uma posição suficientemente apropriada. Os episódios finais, especificamente, parecem ser uma escalada sem fim de emoções, a ponto de não se saber o que esperar do Season Finale. Um pouco do tom ácido parece ter sido deixado de lado, talvez pelo mesmo motivo mencionado no parágrafo sobre a quebra da quarta parede, o que só torna tudo mais sério.
A terceira temporada de House of Cards já está disponível na Netflix e, junto com as duas primeiras temporadas, afirma a imagem da série como uma Montanha Russa Emocional na qual o embarque é obrigatório.
