O Último Cine Drive-in


SINOPSE
Ao retornar a sua cidade natal com sua mãe adoecida, Marlon Brando reencontra seu pai, Almeida, e o cinema Drive-in onde passou sua infância, mantido pelo dono com a ajuda de apenas dois funcionários. A chegada de Marlon e a ameaça de demolição do Drive-in trarão um novo rumo para suas vidas.

"Para nossos pais."

A véspera da despedida é, provavelmente, mais intensa que o próprio momento no qual se diz "adeus" e se parte. Muitas vezes somos envolvidos por nostalgia, pelos momentos felizes que vivemos e por aqueles que ainda viveríamos, mas que já existem na nossa imaginação. Essa preparação para a partida, entre a nostalgia e a viagem é a grande estrela oculta de O Último Cine Drive-In.

Escrito e dirigido por Iberê Carvalho, com a participação de Zepedro Gollo na construção do roteiro, o filme é estrelado por Breno Nina, Othon Bastos, Rita Assemany e Fernanda Rocha. A direção de fotografia é de André Carvalheira, enquanto a trilha sonora é criada por Sascha Kratzer, Zepedro Gollo e Bruno Berê.

Uma coisa que precisa ser dita sobre o longa, antes de qualquer coisa, é que ele se passa em Brasília, onde, como o próprio nome do filme já diz, se encontra o último cine drive-in ainda em funcionamento em todo o Brasil. Esse cenário é muito bem trabalhado pela famosa "magia do cinema", que une lugares que não se conectam e transporta cenários de uma ponta a outra, mas a sua verdadeira essência (o céu azul, com poucas nuvens, acima do chão amarelo, dos tempos secos, por exemplo) se mantém muito presente.


As personagens são muito bem construídas e as relações entre elas são mais ainda. Alguns momentos não precisam de diálogos para expressar o que as personagens querem dizer e, na maioria deles, isso fica tão claro para os espectadores quanto para elas mesmas. São relações construídas em um cenário melancólico, que colocam o otimismo em um confronto direto com a estagnação e o arrependimento, por exemplo. Mesmo que as atuações não sejam todas a nível do incrível Othon Bastos, todos os atores conseguem, seja pela voz ou pela linguagem corporal, apresentar esses momentos.

A direção de arte também tem um caráter fundamental nessa construção, tanto das personagens, quanto do próprio clima de despedida iminente que se intensifica gradualmente. Os retratos de Travis Bickle no guarda-roupas de Paula indicam, por exemplo, suas influências para ser como é; os preservativos vistos constantemente no chão do pátio deixam ainda mais intenso o discurso sobre a degradação do cinema e sobre a velocidade com a qual o lugar deixa de ser um encontro para apreciação de filmes e passa a ser um ponto de encontro para relações sexuais.

A trilha sonora dispensa quaisquer comentários. Sua apresentação, praticamente teatral, sendo influenciada com as ações que se dão em tela, cria uma sincronia imensa entre o que está sendo visto e o que está sendo ouvido. Isso acaba criando um prazer muito grande no espectador, a cada momento em que os primeiros acordes de uma música começam a se apresentar, mesmo que timidamente.


Mesmo sendo uma produção grande, algumas soluções deixam muito explícita a natureza de baixo orçamento do filme, com investimento do Fundo de Apoio à Cultura etc.. Essas mesmas soluções mostram o quão articulado é o diretor Iberê Carvalho, que, mais uma vez, se apropria da "mágica do cinema" para apresentar algo grandioso e humilde ao mesmo tempo.

No fim das contas, O Último Filme Drive-in é uma grande homenagem, não só ao local, apresentado logo no título, mas também aos nossos pais que, por mais diferentes que sejam de nós, nunca deixam de nos ensinar e encorajar a perseguir nossos sonhos, sejam esses pais próximos, como os que ajudaram na construção de Brasília, sejam eles distantes, como os que ajudaram na construção do próprio Cinema.
Compartilhe no Google Plus