
Com oito episódios, a minissérie será um prequel do filme homônimo de 2001 - Mais um Verão Americano. A história se passa no início do acampamento no qual se passa o longa.

"A mistura ideal de LOL e WTF."
A Netflix, serviço de streamming de filmes, séries, shows etc., definitivamente age de maneiras estranhas. Além de seu método de distribuição de produções originais, que já não é nada convencional e o livra de várias "tendências" do meio, a "Ruiva", vez ou outra, pesca produções que talvez estivessem à frente de sua época quando surgiram e continua o trabalho da forma que imagina ser mais interessante. Isso foi feito com a série Arrested Development, em 2013, e está sendo repetido agora com o filme Mais um Verão Americano (Wet Hot American Summer), de 2001, por meio da nova produção original deles, chamada Wet Hot American Summer: First Day of Camp.
A equipe de produção é a mesma do filme de 2001. Escrita por Michael Showalter e David Wain, que também aparece como diretor; a série é estrelada por grandes nomes, como Paul Rudd, Amy Poehler, Bradley Cooper e muitos outros. Craig Wedren retorna na coordenação da música, mas a fotografia é substituída pelo trabalho de Kevin Atkinson.
Prequels (ou prequências) geralmente são complicados. Sendo histórias que saem depois da original mas contam tramas que acontecem antes, o potencial prático dessas narrativas é, à primeira impressão, quase desconsiderável. Partindo de uma visão superficial e óbvia, isso acontece porque a nova história é só uma preparação para a história que já foi contada. Mas, algumas vezes, novas subtramas são adicionadas e alguns contextos são reconsiderados, como teria sido o caso da influência da trilogia O Hobbit sobre a do Senhor dos Anéis, se tivesse sido bem feita.

Em Wet Hot American Summer: First Day of Camp, o desafio é grande: trata-se de uma reunião de grandes astros da tevê e do cinema para produzir o prequel de uma história apresentada há quase quinze anos. Como o próprio nome sugere, a nova série fala sobre o primeiro dia do acampamento Firewood, enquanto o filme original se passa no último dia. Sendo assim, várias subtramas novas são iniciadas, várias motivações são incluídas e algumas explicações precisam ser feitas, como o motivo para as pessoas parecerem quinze anos mais novas ao final de um acampamento.
Para tal, a série se aproveita do humor bizarro para funcionar. Extrapola, até mesmo como piada, a cultura de colocar adultos fazendo personagens adolescentes nas produções juvenis e coloca um elenco que está na faixa dos 30 e 40 anos para interpretar jovens entre 16 e 24 anos de idade. Além disso, coloca adolescentes para interpretar crianças e cria um clima estranho mas ao mesmo tempo crível de diferença de idades. Isso possibilita a criação de piadas que seriam absurdas se não estivessem no contexto certo, como a trama de uma garotinha que odeia rapazes e se transforma numa adulta devassa depois de passar pela primeira menstruação.
A série brinca bastante também com os clichês de época relacionados a tramas de acampamento como batalhas entre o acampamento dos riquinhos contra o acampamento Firewood e ameaças ambientais/governamentais que podem levar ao fim do acampamento. É claro que todas essas tramas são levadas com um humor negro, que parte muitas vezes da humilhação, mas de um jeito muito adulto.

O legal dessa situação toda é a volta por cima sensacional que foi dada. Mais um Verão Americano tem uma média ridiculamente baixa em sites agregadores de críticas, como o Rotten Tomatoes e, por outro lado, Wet Hot American Summer: First Day of Camp tem mais de 90% de aprovação. É engraçado porque a série extrapola o humor absurdo do filme original e, ao mesmo tempo, ressignifica toda a situação apresentada ali. O resultado é algo tão divertido e se conecta tão bem com Mais um Verão Americano, que chega a deixar o filme mais interessante.
Em resumo, Wet Hot American Summer: First Day of Camp ultrapassa barreiras e redefine situações estabelecidas há quase vinte anos em uma comédia que, definitivamente, não é para todos. É, não somente, uma reunião na qual a produção parece se divertir como nunca se divertiu e mais um acerto gigantesco da Netflix; mas também o prequel indispensável que ninguém sabia o quanto precisava.
